Manchester United deve evitar Oliver Glasner, perfil semelhante a Ruben Amorim apesar do sucesso no Crystal Palace

Há cinco meses, Oliver Glasner despontava como um candidato forte para assumir o comando técnico do Manchester United. Naquele momento de incertezas sobre o futuro de Ruben Amorim, após uma derrota decepcionante para o Brentford no final de setembro, o Crystal Palace sob o comando do austríaco venceu o Liverpool, interrompendo a sequência de sete vitórias consecutivas dos Reds e mantendo os Eagles invictos na Premier League. Esse feito reforçou a imagem de Glasner como um treinador capaz de se destacar mesmo com recursos limitados.

O Crystal Palace não era apenas um clube qualquer. Depois de surpreender ao derrotar o Liverpool na Community Shield e conquistar a FA Cup na temporada passada, o clube serviu como exemplo do que um técnico de alto nível pode alcançar com poucas opções. Glasner surpreendia ao desafiar a visão de que o esquema 3-4-3, sistema adotado também por Ruben Amorim e que vinha enfrentando dificuldades na Inglaterra, não teria sucesso na Premier League.

Enquanto o Manchester United investia cerca de £250 milhões na tentativa de firmar o 3-4-3, com mudanças radicais no elenco e a saída de jogadores tradicionais, Glasner se destacava como um porta-voz que defendia o mesmo estilo de jogo e já havia levado o Crystal Palace a triunfos contra o United, incluindo uma goleada por 4 a 0 quando Erik ten Hag ainda comandava o time, e uma vitória por 2 a 0 em Old Trafford, agora sob Amorim.

No entanto, o quadro mudou significativamente nos últimos meses. Apesar de ainda ser cotado como segundo favorito para assumir o United em breve, atrás de Michael Carrick, Glasner viu sua boa reputação desmoronar no Crystal Palace. Ele começou a manifestar um comportamento que lembra os momentos mais conturbados de Ruben Amorim, com explosões públicas e críticas à diretoria do clube, revelando desgastes que complicam sua imagem como uma opção ideal para os Red Devils.

Desempenho recente e repercussão negativa

A trajetória recente de Glasner no Palace tem sido marcada por um desastroso desempenho: apenas três vitórias em 17 jogos, incluindo uma sequência de 12 partidas sem êxito. Entre os resultados negativos, destaca-se a surpreendente eliminação da FA Cup para o Macclesfield, time que nem disputa a liga profissional, caracterizada como uma das maiores zebras da competição. Além disso, derrotas como a goleada por 4 a 1 contra o Leeds e a queda em casa para o Burnley colocam ainda mais pressão sobre o treinador.

Depois de ocupar o quarto lugar na Premier League em dezembro, o Palace caiu para a 13ª colocação, e embora algumas vitórias recentes tenham amenizado o espectro do rebaixamento, o cenário prejudica as chances de Glasner conquistar um cargo de elite no futuro próximo. Ele confirmou que deixará o clube ao final da temporada, anunciando que busca um “novo desafio”.

Contudo, apesar de suas afirmações públicas, Glasner não hesitou em fazer críticas severas à diretoria pouco depois, questionando a venda do capitão Marc Guehi para o Manchester City e demonstrando frustração com a administração do Crystal Palace. Suas declarações foram a público após a derrota para o Sunderland, quando afirmou sentir que o clube estava “completamente abandonado”, atitude que se assemelha diretamente a comportamentos vistos no técnico português Ruben Amorim durante seu tempo turbulento no United.

Paralelos com Ruben Amorim

Glasner tem reproduzido a mesma falha que foi fatal para Amorim no Manchester United: um confronto aberto com a diretoria e uma postura crítica que divide fãs, jogadores e a administração. Essa indisposição em aceitar limitações impostas pelo clube, aliada à dificuldade em controlar a comunicação com a imprensa, contaminou sua relação com os torcedores, que chegaram a entoar cânticos de descontentamento contra ele.

Além disso, sua incapacidade de manter o desempenho das conquistas anteriores coloca em xeque seu estilo tático. Mesmo utilizando formações distintas ao longo da carreira e tentando adaptar seu time às qualidades do plantel, Glasner não conseguiu elevar o Crystal Palace a um futebol dominante, apresentando um estilo reativo que falhou ante adversários considerados mais frágeis. Essa limitação técnica agrava ainda mais sua avaliação entre especialistas e torcedores.

O ex-técnico do Palace, Sam Allardyce, comentou que Glasner precisa “engolir um pouco do seu orgulho” e abandonar a narrativa conflituosa que tem adotado, alertando que o austríaco “arruinou sua reputação” mesmo tendo conquistado feitos notáveis com poucos recursos. Essa impressão contribui para que a diretoria do Manchester United olhe com cautela sua eventual contratação, especialmente levando em conta experiências passadas com treinadores de clubes menores, que tropeçaram quando passaram a gerir grandes clubes, como Graham Potter no Chelsea e David Moyes no próprio United.

A questão tática e a busca do Manchester United

O estilo “azarão” que conduziu Glasner aos triunfos no Crystal Palace e no Eintracht Frankfurt pode não se adequar ao padrão elevado exigido pelo Manchester United. A expectativa é que um clube como os Red Devils pratique um futebol dominador e sofisticado, e a capacidade limitada de Glasner para impor seu jogo sem depender de reações adversárias levanta dúvidas sobre sua adaptação ao clube.

Outro ponto de atenção é sua suposta necessidade de controle nos bastidores, que pode entrar em conflito com a estrutura atual do United, onde os treinadores têm influência restrita nas decisões de mercado. Essa característica, aliada à dificuldade em gerenciar relacionamentos dentro e fora do vestiário, torna sua contratação menos atrativa.

Enquanto Michael Carrick vem surpreendendo positivamente e rejuvenescendo as esperanças do clube, consolidando seu nome para o cargo, o United parece inclinar-se a realizar uma busca criteriosa no mercado, considerando nomes como Luis Enrique e Julian Nagelsmann para o comando futuro. A experiência recente com Amorim e o desgaste vivenciado com ambos os técnicos similarmente táticos e controladores sugerem que a diretoria pode preferir evitar Glasner nesta empreitada.

Assim, apesar do sucesso inicial e das qualidades reconhecidas, Oliver Glasner hoje é visto mais como um exemplo a ser evitado, um técnico que traz riscos semelhantes aos enfrentados anteriormente com Ruben Amorim, e cujo perfil, embora promissor em teoria, tem apresentado dificuldades graves na prática.

Tiago Sampaio

Ex-jogador profissional de futsal e editor-chefe do Giro Desportivo. Atua com foco em análise tática, mercado da bola e bastidores do futebol.

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